Ernesto Chardron

Por Ramalho Ortigão, in «As Farpas», 3º tomo.

«Agosto, 1886
Morreu no Porto o editor Ernesto Chardron, cujo nome ocupa na historia da livraria portuguesa d’este seculo um dos logares mais importantes e mais vastos.
Antigo caixeiro da casa Moré, por alguns anos administrada por Gomes Monteiro, depois da morte do fundador, Chardron teve o prémio grande n’um bilhete da loteria; e foi com esse fundo de acaso, 8 ou 10 contos de reis, que ele se estabeleceu por sua conta e montou a casa editorial que em pouco se tornou famosa.
Entre os frequentadores ordinarios do largo dos Loios e da praça D. Pedro no Porto, Chardron era muito mais celebrado pelos menus dos seus jantares do que pelos catalogos das suas publicações.
Ele foi, com efeito, durante os ultimos vinte anos o homem que melhor comeu na cidade do Porto, onde a gastronomia está longe de se poder considerar á altura do seculo.
Tirem-lhe o arroz dôce, tirem-lhe o arroz de forno, tirem-lhe o peixe frito do Reimão, tirem-lhe as decantadas tripas – especie de dobrada de estilo composito, que se serve dentro de uma terrina em que entra tudo quanto constitui um jantar, desde a sopa até o queijo e a pera – e a cidade do Porto tem esgotado todo o seu reportorio culinario.
Chardron cultivava excepcionalmente a arte das boas ceias planturosas e finas, e era unicamente á sua mesa de celibatario rico, a que ele não reunia senão sabios compatriotas e raros literatos nacionaes arrancados á idolatria da tripa e da orelheira com feijão pela catequese do Café Anglais, que a gente podia, dentro dos muros da cidade invicta, reatar conhecimento com a suculenta galinhola ou com a aromatica perdiz, sucessivamente assada e constipada no espêto, já por um hemisfero já pelo outro, entre as correntes de ar e as baforadas de lume mais sabiamente combinadas para manter no volatil assado e servido a ponto tudo quanto ele pode oferecer de mais requintado e de mais profundo no chorumento suco da polpa, na loura, estalante e fusivel delicadeza da pele.
Era unicamente á comunhão da sua mesa que, ao lado da sagrada particula venatoria, o peregrino encontrava o fino legume de maravilhosa precodidade, a tenra ervilha apenas desmamada da primeira vagem do ano, a pingue alcachofra anodina, a trufa ardente e insidiosa, e o calmante espargo, enquanto na taça das libações corria num fio tépido, aromatico e rubro, um legitimo Bourgogne, ou cahia em granizo um autentico Champagne.
A cozinheira de Chardron só fazia bem o assado. Seu amo não lhe permitia que se achincalhasse tocando em qualquer outro serviço que não fôsse aquele para que a providência manifestamente a destinára, e era unica e exclusivamente como rotisseuse que a empregava.
Quem no Porto sabia fazer os civets, as gibelottes, as matellotes, as ramoulades, era a cozinheira de Genilioux. Chardron, para comer em termos acabara por dividir o jantar em fasciculos, fazendo aparecer a introdução e a primeira parte da obra em casa do seu amigo, a segunda parte e o epilogo em sua casa.
Na escolha dos livros era muito mais latitudinario que na escolha das iguais. O seu deposito de impresso ocupa dois ou tres predios, e é uma cousa assombrosa de variedade e quantidade; – tratados vários; relatorios, regulamentos, manuaes; traduções de Ponson du Terrail, de Montépin, de Eugène Sue, de Frederico Soulié, de Fernandez y Gonzalez, de Legouvé, de luiz Figuier, de perez Escrich, de Lamartine, etc.; compendios, dicionarios, enciclopedias; metodos facilimos, discursos, rudimentos, ocios, repositorios, noticias, elementos, viagens, fantasias, e vidas; sermonarios, alamanques, agendas, albuns, livros de missa, descobertas, maravilhas; e uma serie infindavel de obras devotas e de cartapacios consagrados á classe eclesiastica, como o Tesouro de prégadores, a Vida de Pio IX, o Catecismo exemplificado, a Cerimonia da missa, Ancora da salvação, Discurso ácêrca da religião catolica, Os heroes catolicos, Os jesuitas, A lei de Deus, A hospedaria do anjo da guarda, O maná do sacerdote, Ás senhoras da associação da caridade, etc., etc., etc.
Nada mais interessante para a historia da mentalidade portuguesa durante os ultimos vinte anos do que seguir atravez d’este dedalo de publicações , d’estes centenares de volumes em brochura e em papel, sobre assuntos mais variados, mais diversos e mais contraditorios, o fio da curiosidade publica, medindo a procura de cada obra pelo que resta da respectiva edição no armazem. Recomendo aos sucessores de Chardron esse interessante estudo estatistico.
Além da grande e confusa massa de livros a que me refiro, Chardron teve a honra de editar obras dos nossos primeiros escritores, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro. Por muitos anos foi ele o editor unico de Camilo, mas tanto este como outros eram já celebres e ilustres quando Chardron lhes imprimiu os livros. Não creio, de resto, que ele proprio os lesse, nem que, lendo-os, encontrasse uma diferença incomensuravel entre o Crime do Padre Amaro – por exemplo – e O maná do sacerdote.
Chardron publicou muitos livros, comprou muitos manuscritos, e foi com todos os escritores da sua convivencia um comerciante honrado, de um espirito conciliador e benigno, de um coração largo. Aqueles cujas obras ele editou, e que lidaram com ele, recordarão por muito tempo a sua jovial fisionomia, como a de um d’esses raros homens alegres, saudaveis e bons, que sabem adoçar a vida no que ela tem de mais aspero, tratando os negocios como se tratam os prazeres, e não sendo menos sérios nos seus contratos do que os maiores massadores d’este mundo. Essa é a bela e simpatica feição que o distingue.
Enquanto a determinar, atravez da publicidade, alguma especial corrente de idéas; emquanto a distinguir e a agrupar em torno de si, na confusa refrega, aqueles que teem de ser os vencedores e os chefes do movimento novo, Chardron não o sabia fazer.
Assim está inteiramente fora do seu plano de editor o fino tacto com que Jorge Charpentier, por exemplo, soube enfeixar a obra de Flaubert, de Zola, dos dois Goncourts, de Maupassant e de Daudet.
Todos os leitores conhecem hoje perfeitamente a afinidade que existe entre esses seis escritores. Charpentier sentiu-a antes que o publico a compreendesse. Eis a habilidade que não teve Chardron»
Ernesto Chardon foi livreiro e editor. Nasceu em França em 1840, falecendo no Porto, em 1885. Fundou no Porto a Livraria Internacional, na Rua dos Clérigos, nº96-98, em 1869. No mesmo local seria, após a sua morte, instalada a livraria Lugan & Genelioux e em 1894 a firma José Pinto de Sousa Lello & Irmão, a qual veio a construir, em 1906, na rua dos Carmelitas nº144 o actual estabelecimento, passando, em 1919, a designar-se por Lello & irmão.

Duque da Ribeira

Deocleciano Monteiro (Duque da Ribeira), 24-03-1902 a 09-11-1996
Estivador e barqueiro no rio Douro (no seu pequeno bote baptizado «Cais das Pedras»), protagonizou ao longo da vida dezenas de salvamentos (o primeiro aos 11 anos de idade), ensinou diversas gerações a nadar e tornou-se figura carismática e popular da cidade, recebendo diversas homenagens ao longo da sua vida.

Onde pára o leque dos «cinco cães»?

Grupo dos Cinco
Tirada no Palácio de Cristal no verão
Fotog., Photographia União, Porto 1884
(da esq. para a direita: Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins)

«O meu amigo Eça de Queiroz, que tem andado comigo, com uma maleta, e com uma resma de papel, a procurar pelo reino um sítio limpo de massadores, de moscas e de cozinheiros afrancezados, para ahi acabar de escrever A Reliquia, chaga-me hoje da Granja, onde por espaço de dois dias aplicou aos fenomenos sociaes o monocola da nalise; mas nada pude arrancar do seu peito discreto ácerca da intriga de castas, que surdamente me dizem agitar a psicologia a banhos n’essa praia. Ao sentarmo-nos á mesa para almoçar juntos no Palacio de Cristal, com Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, soubemos apenas que no club da Granja o nosso amigo perdera na vespera a aposta de um leque n’uma partida de bilhar com uma das banhistas. Uma das condições da aposta era que o leque seria escrito pelos amigos com que Eça de Queiroz tinha de vir almoçar ao Porto.

Á sobremesa fizemo-nos pois servir um tinteiro e uma penna da cozinha, e entre a pera e o queijo, o leque, comprado no Bazar do Palacio, de setim côr de ouro ornado de uma aguarela representando um grupo de cinco cães, ficou escrito do seguinte modo.
Por cima dos cães, este distico: – Os autores.
Do lado oposto, a rubrica e o texto que passo a transcrever:
OS LATIDOS
I
Quem muito ladra, pouco aprende. Antero de Quental
II
Escritor que ladra não morde. Oliveira Martins
III
Dentada de critico cura-se com pêlo do mesmo critico. Ramalho Ortigão
IV
Cão lirico ladra á lua; cão filosofo abóca o melhor osso. Eça de Queiroz
V
Cão de letras – cachorro! Guerra Junqueiro
ENVOI
São cinco cães, sentinelas
De bronze e papel almasso;
De bronze para as canelas,
De papel para o regaço.
(Assinada) A MATILHA
O leque foi para a Granja com Eça de Queiroz. (…)»
Ramalho Ortigão, in As Farpas, 1º Tomo, Empresa Literária Fluminense Lda, 1926, Lisboa, p.p233-235;
Notas: O referido almoço no Palácio de Cristal ocorreu em Outubro de 1884.
A «banhista» apostadora com Eça de Queiroz, era Emília de Castro Pamplona, com quem aquele escritor veio a casar em 1886.

M. d’O – 8 de Dezembro de 1908

«Portugueses fotogénicos: M. d’O., portuense, desportista quási completo, 1 m. e 73 c. de altura, loiro, olhos verdes-acastanhados. Um célebre enscenador francês, depois de ver as suas fotografias, comunicou-lhe que elas «prouvent des qualités photogéniques cértaines», terminando por lhe manifestar este desejo: «Si vous venez un jour à Paris ne manquez pas de venir me voir». Aos seus dotes naturais, junta M. d’O. uma sincera vocação para a scena muda.»

Revista «Cinéfilo», 1 de Junho de 1929