Uma inspecção do IVP

Fotografia encontrada no eBay. Sem autor e sem data. 
Provavelmente do início dos anos 50 e da responsabilidade do próprio I.V.P.

Um interessante «boneco» realizado para demonstrar como decorriam as acções inspectivas do  I.V.P. (Instituto do Vinho do Porto).
Temos ali o quadro completo da cena:  a carrinha do I.V.P,; o respectivo motorista fardado; o técnico tomando notas e verificando o manifesto de carga; 3 caixas abertas e duas garrafas estrategicamente posicionadas; a presença do GNR da Guarda Fiscal por causa das coisas e o comerciante/expedidor abrindo uma garrafa e servindo um copo como prova de que era mesmo vinho.Também dois mirones de serviço. A completar, pode-se imaginar o fotógrafo empoleirado em cima de umas caixas para apanhar o devido angulo……

50 anos do martelinho de São João

Tendo lido que este ano, 2013, o martelinho de S. João fazia 50 anos que pela primeira vez surgira na festa maior da nossa cidade, fui à procura da sua historia.
E encontrei. Tudo explicadinho.
Texto e imagens de Manuel Martinho de quem se reproduz, com o agradecimento por contar a sua história e assim a mesma ficar na História, como merece.

O primeiro martelinho

«A História dos martelinhos de São João 

O martelo de S. João foi inventado em 1963 por Manuel António Boaventura, meu Avô, industrial de Plásticos do Porto, que tirou a ideia num saleiro/pimenteiro que viu numa das suas viagens ao estrangeiro. O conjunto de sal e pimenta tinha o aspecto de um fole ao qual adicionou um apito e um cabo vindo a incorporar tudo no mesmo conjunto e dando-lhe a forma de um martelo. 
O objectivo inicial era criar mais um brinquedo a adicionar à gama de que dispunha. Nesse mesmo ano os estudantes abordaram o Sr. Boaventura com o intuito de lhes ser oferecido para a queima das fitas um “brinquedo ruidoso”, ao que o Sr. Boaventura acedeu oferecendo o que de mais ruidoso tinha…os martelinhos. A queima das fitas foi um sucesso com os estudantes a dar “marteladas” o dia todo uns nos outros e logo os comerciantes do Porto quiseram martelinhos para a festa de S. João. Esse ano o stock era pouco mas no ano seguinte os martelos foram vendidos em força para esta festa e ao mesmo tempo oferecidos pelo Sr. Boaventura a crianças do Porto. 
Assim o martelinho entrou nas festa do S. João sendo aceite incondicionalmente pelo povo nos seus festejos. 
A venda fez-se normalmente durante 5 ou 6 anos até que um dia o Vereador da cultura da Câmara do Porto, Dr. Paulo Pombo e o Presidente da Câmara do Porto Engº Valadas chegaram á conclusão de que este brinquedo ia contra a tradição e decidiram fazer uma queixa ao Governador Civil do Porto Engº Vasconcelos Porto, queixa esta que foi aceite tendo mesmo o Governador Civil notificado o Sr. Boaventura de que no ano seguinte estava proibido de vender martelos para a festa de S. João, mandando avisar que quem fosse apanhado com martelos na noite de S. João seria multado em 70$00 (na época ganhava-se cerca de 30$00), e mandando retirar os martelos das lojas comerciais onde estavam á venda. O que é certo é que o povo não acatou esta decisão e continuou a usar o martelo nos seus festejos. O Sr. Boaventura ao ver-se lesado e injustiçado nesta decisão do Governo Civil levou então a questão a tribunal, perdendo em 1ª e 2ª instância. (estava-se no tempo de Américo Tomás e Marcelo Caetano e consequentemente da PIDE). 
No entanto no ano de 73 recorreu para o Supremo Tribunal e ganhou a questão, podendo assim continuar a fazer os martelinhos que se tornaram tradição popular não só no S. João do Porto, como no S. João de Braga, Vila do Conde, Carnaval de Torres Vedras, Passagens de ano, campanhas de partidos políticos, etc.
Os martelos sofreram inúmeras alterações ao longo dos anos mas a tradição ficou e a sua história perdeu-se com o tempo….»

Fantasporto – IV

«MEMÓRIAS DO FANTAS (originalmente publicado aqui, a 28/02/2004)

O Fantasporto é um dos principais festivais de cinema do mundo, seja pela sua dimensão, qualidade e variedade dos filmes e sucesso de público.
Está agora decorrer a sua 24ª edição, à qual não tenho oportunidade de assistir.
O Fantas tinha, no tempo em que eu assiduamente participava, diversas particularidades que o tornavam tão carismático.
Hoje em dia está popularizado o conceito de ir ao cinema sem se saber ao certo que filme se vai ver. No Fantas era assim todos os dias. Lia-se o programa, dizia-se vagamente “ouvi dizer que este é bom” e sabe-se lá que mais mentiras intelectuais e partia-se para o Carlos Alberto para uma sessão no escuro. Em todos os sentidos.
Aquele cinema não tinha lugares marcados, as pessoas sentavam-se onde queriam, mas existiam arrumadores!
A fauna que o frequentava sempre me fascinou: de onde saía aquela gente cheia de barbas, cachecois palestinianos, malas a tiracol, eu sei lá? Zombies noctívagos certamente pois de dia não se viam pela cidade.
O ambiente era perfeitamente delirante. Batia-se palmas quando as moto-serras dos filmes de Dário Argento (nas sessões das duas da manhã!) cortavam ao meio o 14º personagem. Tudo aquilo não tinha muito sentido, mas era divertidíssimo. Assobiava-se quando o herói salvava a criança das garras do milionésimo lobisomem: “deixa ver”, “sacana”, sai da frente”, “deixa o rapaz trabalhar” eram expressões usualmente soltas pelos mais exigentes.
Havia intervalos nos filmes e uma onda de fumo entrava pela sala dentro na segunda parte.
Um dia, numa qualquer sessão às cegas das 15.30 apareceu um sujeito em cima do palco a anunciar que o filme se tinha atrasado num qualquer aeroporto e portanto iria ser substituído por outro, de um ainda mais obscuro realizador polaco, em V.O., legendado em francês. Ninguém saiu da sala. Ninguém protestou. Era para isso mesmo que lá estavamos todos. Ser surpreendidos. Nem sequer ao fim de meia hora em que não se percebia um chavo (toda a gente percebia francês, claro, a dificuldade relacionava-se com a realização deficiente, com a história desconchavada e com as minúsculas legendas de minuto a minuto, numa película cheia de diálogos naquela bela língua de Leste.
Mas o êxtase aconteceu quando de repente, num belo efeito cinematográfico de impossível repetição, a película, qual cena inicial do Bonanza, começou a arder, do centro para a periferia. A sala vinha abaixo com palmas, gritos de “bis, bis”, “queremos mais” e sei lá que mais. Lá surgiu o mesmo personagem a anunciar “um curto intervalo” e a reposição de um filme passado no dia anterior.
Vi lá coisas excelentes das quais destaco a ante-estreia de Blade Runner. Cronemberg, o horrível, mas por isso mesmo divertido filme de Coppola chamado “Dimitri 13″, o “Metrópolis” do Fritz Lang com banda sonora por uma orquestra ao vivo, “Solaris” do Tarkovsky, Joel e Ethan Cohen, Brian de Palma, Freddy Krugger, Pedro Almodovar, Stephan King, Tarentino, o “Delicatassen”, David Lynch e tantas coisas boas.
E tenho a sensação que é um Festival com poucos subsídios (é duro, mas fica-lhe bem e aguça o engenho), com uma excelente imagem visual e gráfica e que se tornou uma marca visível da cidade.
Viva o Fantas!»