O 376 de Cedofeita: fonte, colégio, pensão e malhas.


Na rua de Cedofeita, mesmo em frente à rua da Torrinha está ainda hoje prédio onde existiu uma fonte pública, conhecida por «Fonte da Rua de Cedofeita». Tal fonte foi construída em 1826 a pedido de José Ribeiro Braga, então proprietário de vastos terrenos naquela zona e por onde passava aqueduto com águas dos mananciais de Paranhos e Salgueiros. Essa fonte acabou por ser incorporada, mantendo a sua utilização, num prédio que, desde 1855, albergou a escola «Von Hafe Schule», digna antecessora do actual Colégio Alemão, fundada pelo padre Martin Richter e que em 18 de Novembro de 1901 se muda para o nº410 da Rua da Restauração, passando a designar-se por «Deutsche Schule zu Porto».

Provavelmente pouco depois dessa data, instala-se no edifício um estabelecimento hoteleiro com o apropriado nome de Pension La Fontaine. Durante algumas décadas esteve em funcionamento, não se sabendo quando dali foi retirada a fonte, embora provavelmente quando encerrada a pensão e feitas obras para adaptação a loja comercial no piso inferior, sendo o espaço da fonte ocupado com a montra de loja. O prédio encontra-se abandonado e para venda, funcionando no piso térreo loja de representação de produtos para tricot da marca «Brancal».
Fotografias:
1) Fonte de Cedofeita, actualmente nos Jardins do SMAS
Fonte da imagem

2) Pension La Fontaine

3) Na actualidade































Adenda:
Segundo o leitor António Coutinho Coelho: «foi a sede da JUC (Juventude Universitária Católica) dotada de salas de reuniões (1º andar) e dum Lar de estudantes (no 2º, 3º e 4º). Penso que foi o Cónego Dr. Joaquim Manuel Valente, professor do Seminário da Sé, e assistente da JUC, quem angariou esta sede e lar. Não sei exactamente em que ano, mas sei que em 1955, a JUC já estava neste local. Aqui ficou até pelo menos ao 25 de Abril, sendo assistente o Padre Dr. Manuel Correia Fernandes (actual director do Semanário Voz Portucalense).

A instalação da Filial do Banco de Lisboa no Porto

Convento de S. Domingos
(Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto, 1238-1832),
visto do Largo de S. Domingos.
in «Edifícios do Porto em 1833», Álbum de desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova,
Ed. Biblioteca Municipal do Porto, 1987;

«Com efeito, já no relatório da sua gerência sugeria aquela Direcção a utilidade que teria «o estabelecimento duma Caixa Filial no Porto», aludindo às informações recebidas, a tal respeito, «do seu empregado», isto é, de Joaquim Pereira Pinto, e apresentando mesmo um projecto de Regulamento onde se estabelecia o quadro do pessoal e suas obrigações, bem como a natureza dos negócios , que eram análogos aos da sede.
A Assembleia Geral aprovou essa proposta em 26 de Janeiro; a Direcção de 1825 deu-lhe andamento, e logo nos primeiros dias da segunda quinzena de Fevereiro, Joaquim Pereira Pinto, que andava em busca de casa onde pudesse instalar-se a Filial, tendo já visitado várias, dava favoravelmente notícia de «um quarto de casas no Convento de S. Domingos», que descobrira.
Passados dias, o parecer da Direcção oscilava entre essa instalação e a que poderia fazer-se na casa do fidalgo portuense José de Sousa e Melo, motivo por que recomendava, em 2 de Março, àquele seu emissário que examinasse também esta e soubesse condições, dizendo-lhe com argúcia que, visto ser oferente o proprietário, alegasse «ter outras casas já em palavra» para obter o mais baixo preço; dias depois, já a Direcção estava de posse de todos os elementos de apreciação, tanto os relativos à vantagem de localização como os de ordem financeira e podia formar o seu juízo: a casa de José de Sousa e Melo era espaçosa, porém menos central que o convento de S. Domingos; ambas essas possíveis instalações careciam de obras, mais dispendiosas quanto a este, de modo, que bem feitas as contas, o quantitativo da renda pedida pelos Dominicanos «unido com o capital despendido na obra e seu juro e amortização», perfazia um total equivalente à renda pedida pelo fidalgo. Mas este queria também o pagamento adiantado das rendas de 9 anos, e isto era de considerar, de modo que a Direcção acabou por incumbir ao seu emissário a tarefa de procurar obter de uma parte e da outra abaixamento da renda e de Sousa e Melo a desistência de um tão longo pagamento adiantado, «fazendo a cada um o jogo necessário para que abaixem»; além disso deveria apurar também com o maior cuidado qual o custo das obras necessárias, num e noutro caso, a fim de poder a Direcção decidir-se por uma destas duas possíveis instalações, e dar-se «princípio a este tão decantado negócio». Chegaram pouco depois as informações pedidas, e, como os frades tinham baixado a renda, a Direcção optou pelo aluguer da parte conventual visitada, ordenando em 26 de Março a celebração do contrato de arrendamento e enviando em 2 de Abril a necessária procuração.

Entretanto também a preparação administrativa da filial tivera começo. O Governo sancionara a deliberação da Assembleia Geral, expedindo em 16 de Março o alvará de aprovação da Filial, e no começo de Maio já o lugar de Tesoureiro do projectado estabelecimento estava prometido ao emissário Joaquim Pereira Pinto, embora a nomeação só viesse a efectivar-se oficialmente em 3 de Junho, conjuntamente com a dos três Administradores, do Guarda-Livros, de três Caixeiros, de dois Fiéis, do Cobrador, de dois Contínuos e do porteiro.

A Direcção tinha em mente realizar a abertura da Filial em 1 de Julho; e nesse sentido, repetidamente ordenou que se activassem as obras de adaptação da parte do convento de S. Domingos que alugara. Nos princípios de Julho, já os Administradores da Filial se achavam no Porto e realizavam algumas operações; (…)».

in História do Banco de Portugal (1821-1846), Damião Peres, 1971, Lisboa

Nota: A este Banco de Lisboa veio a suceder, por fusão com outras instituições, o Banco de Portugal, o qual, em 1865, adquiriu em hasta pública todo o edifício sobrevivente do antigo Convento de São Domingos, virado para o Largo do mesmo nome, ali funcionando aquele estabelecimento bancário até 1934 (perfazendo um total de 109 anos), quando então se mudou para as actuais instalações na Praça da Liberdade.

Ernesto Chardron

Por Ramalho Ortigão, in «As Farpas», 3º tomo.

«Agosto, 1886
Morreu no Porto o editor Ernesto Chardron, cujo nome ocupa na historia da livraria portuguesa d’este seculo um dos logares mais importantes e mais vastos.
Antigo caixeiro da casa Moré, por alguns anos administrada por Gomes Monteiro, depois da morte do fundador, Chardron teve o prémio grande n’um bilhete da loteria; e foi com esse fundo de acaso, 8 ou 10 contos de reis, que ele se estabeleceu por sua conta e montou a casa editorial que em pouco se tornou famosa.
Entre os frequentadores ordinarios do largo dos Loios e da praça D. Pedro no Porto, Chardron era muito mais celebrado pelos menus dos seus jantares do que pelos catalogos das suas publicações.
Ele foi, com efeito, durante os ultimos vinte anos o homem que melhor comeu na cidade do Porto, onde a gastronomia está longe de se poder considerar á altura do seculo.
Tirem-lhe o arroz dôce, tirem-lhe o arroz de forno, tirem-lhe o peixe frito do Reimão, tirem-lhe as decantadas tripas – especie de dobrada de estilo composito, que se serve dentro de uma terrina em que entra tudo quanto constitui um jantar, desde a sopa até o queijo e a pera – e a cidade do Porto tem esgotado todo o seu reportorio culinario.
Chardron cultivava excepcionalmente a arte das boas ceias planturosas e finas, e era unicamente á sua mesa de celibatario rico, a que ele não reunia senão sabios compatriotas e raros literatos nacionaes arrancados á idolatria da tripa e da orelheira com feijão pela catequese do Café Anglais, que a gente podia, dentro dos muros da cidade invicta, reatar conhecimento com a suculenta galinhola ou com a aromatica perdiz, sucessivamente assada e constipada no espêto, já por um hemisfero já pelo outro, entre as correntes de ar e as baforadas de lume mais sabiamente combinadas para manter no volatil assado e servido a ponto tudo quanto ele pode oferecer de mais requintado e de mais profundo no chorumento suco da polpa, na loura, estalante e fusivel delicadeza da pele.
Era unicamente á comunhão da sua mesa que, ao lado da sagrada particula venatoria, o peregrino encontrava o fino legume de maravilhosa precodidade, a tenra ervilha apenas desmamada da primeira vagem do ano, a pingue alcachofra anodina, a trufa ardente e insidiosa, e o calmante espargo, enquanto na taça das libações corria num fio tépido, aromatico e rubro, um legitimo Bourgogne, ou cahia em granizo um autentico Champagne.
A cozinheira de Chardron só fazia bem o assado. Seu amo não lhe permitia que se achincalhasse tocando em qualquer outro serviço que não fôsse aquele para que a providência manifestamente a destinára, e era unica e exclusivamente como rotisseuse que a empregava.
Quem no Porto sabia fazer os civets, as gibelottes, as matellotes, as ramoulades, era a cozinheira de Genilioux. Chardron, para comer em termos acabara por dividir o jantar em fasciculos, fazendo aparecer a introdução e a primeira parte da obra em casa do seu amigo, a segunda parte e o epilogo em sua casa.
Na escolha dos livros era muito mais latitudinario que na escolha das iguais. O seu deposito de impresso ocupa dois ou tres predios, e é uma cousa assombrosa de variedade e quantidade; – tratados vários; relatorios, regulamentos, manuaes; traduções de Ponson du Terrail, de Montépin, de Eugène Sue, de Frederico Soulié, de Fernandez y Gonzalez, de Legouvé, de luiz Figuier, de perez Escrich, de Lamartine, etc.; compendios, dicionarios, enciclopedias; metodos facilimos, discursos, rudimentos, ocios, repositorios, noticias, elementos, viagens, fantasias, e vidas; sermonarios, alamanques, agendas, albuns, livros de missa, descobertas, maravilhas; e uma serie infindavel de obras devotas e de cartapacios consagrados á classe eclesiastica, como o Tesouro de prégadores, a Vida de Pio IX, o Catecismo exemplificado, a Cerimonia da missa, Ancora da salvação, Discurso ácêrca da religião catolica, Os heroes catolicos, Os jesuitas, A lei de Deus, A hospedaria do anjo da guarda, O maná do sacerdote, Ás senhoras da associação da caridade, etc., etc., etc.
Nada mais interessante para a historia da mentalidade portuguesa durante os ultimos vinte anos do que seguir atravez d’este dedalo de publicações , d’estes centenares de volumes em brochura e em papel, sobre assuntos mais variados, mais diversos e mais contraditorios, o fio da curiosidade publica, medindo a procura de cada obra pelo que resta da respectiva edição no armazem. Recomendo aos sucessores de Chardron esse interessante estudo estatistico.
Além da grande e confusa massa de livros a que me refiro, Chardron teve a honra de editar obras dos nossos primeiros escritores, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro. Por muitos anos foi ele o editor unico de Camilo, mas tanto este como outros eram já celebres e ilustres quando Chardron lhes imprimiu os livros. Não creio, de resto, que ele proprio os lesse, nem que, lendo-os, encontrasse uma diferença incomensuravel entre o Crime do Padre Amaro – por exemplo – e O maná do sacerdote.
Chardron publicou muitos livros, comprou muitos manuscritos, e foi com todos os escritores da sua convivencia um comerciante honrado, de um espirito conciliador e benigno, de um coração largo. Aqueles cujas obras ele editou, e que lidaram com ele, recordarão por muito tempo a sua jovial fisionomia, como a de um d’esses raros homens alegres, saudaveis e bons, que sabem adoçar a vida no que ela tem de mais aspero, tratando os negocios como se tratam os prazeres, e não sendo menos sérios nos seus contratos do que os maiores massadores d’este mundo. Essa é a bela e simpatica feição que o distingue.
Enquanto a determinar, atravez da publicidade, alguma especial corrente de idéas; emquanto a distinguir e a agrupar em torno de si, na confusa refrega, aqueles que teem de ser os vencedores e os chefes do movimento novo, Chardron não o sabia fazer.
Assim está inteiramente fora do seu plano de editor o fino tacto com que Jorge Charpentier, por exemplo, soube enfeixar a obra de Flaubert, de Zola, dos dois Goncourts, de Maupassant e de Daudet.
Todos os leitores conhecem hoje perfeitamente a afinidade que existe entre esses seis escritores. Charpentier sentiu-a antes que o publico a compreendesse. Eis a habilidade que não teve Chardron»
Ernesto Chardon foi livreiro e editor. Nasceu em França em 1840, falecendo no Porto, em 1885. Fundou no Porto a Livraria Internacional, na Rua dos Clérigos, nº96-98, em 1869. No mesmo local seria, após a sua morte, instalada a livraria Lugan & Genelioux e em 1894 a firma José Pinto de Sousa Lello & Irmão, a qual veio a construir, em 1906, na rua dos Carmelitas nº144 o actual estabelecimento, passando, em 1919, a designar-se por Lello & irmão.