Igreja e rua dos clérigos

Porto – Egreja dos clerigos e calçada do mesmo nome 

      Este templo, que dá celebridade ao Porto pela sua elevadissima e grandiosa torre, teve principio em 1732 no alto de uma calçada n’esse tempo chamada da Natividade. Foi fundado por uma irmandade de clerigos, em que entravam alguns seculares das principaes familias da cidade. O risco e execução dos trabalhos foram dirigidos por Nicolau Nasoni, architecto italiano. 
   Concluiram-se as obras em 1763 sendo tão demoradas tanto pela grandeza da fabrica como pelas avultadas sommas que annualmente consumiam. Verificou-se a sagração do templo no dia 12 de dezembro de 1779, sendo celebrante o bispo do Porto, D. Fr. João Raphael de Mendoça, filho do quarto conde de Val de Reis. Foi dedicada a egreja a Nossa Senhora da Assumpção, mas como o povo começasse a denominal-a durante a sua construcção, egreja dos Clerigos, ficou-lhe este nome popular pelo qual hoje é designada e geralmente conhecida. Da egreja passou tambem este nome para a calçada. 
    Por todos os lados se acha desaffrontado este edificio religioso. O fronstispicio olha para léste, e ergue-se no topo da calçada dos Clerigos. As lateraes estendem.se por duas ruas; e a frente oposta á principal que é formada desde os alicerces pelo edificio da torre, deita para um largo.
    Como bem se pôde julgar á vista da nossa gravura, o frontispicio é mais rico do que bello. Quando os ornamentos são de bom gosto, e se acham convenientemente distribuidos, se não supprem, nem escondem a falta de boas proporções no todo do edificio, conseguem ás vezes disfarçar este defeito, distrahindo d’elle os olhos do observador. Porém no presente não succede assim, porque o defeito referido é aggravado pela accumulação dos ornatos, em geral pouco graciosos e ainda por cima grosseiros, pois que o granito não admitte delicadezas de cinzel.
     Entre os dois nichos com estatuas que se véem corpo superior do frontispicio está a tiara pontificia sobre uma almofada, e no vertice do frontão a cruz de tres braços ornada com folhagem de palmas. É uma duplicada homenagem ao principe dos apostolos como patrono dos clerigos seculares fundadores do templo, e aos papas que concederam a esta egreja differentes graças e privilegios. 
     O interior do templo ostenta riqueza em obra talha doirada e na tribuna da capella mór que é de marmore, e no alto da qual avulta a imagem da padroeira Nossa Senhora da Assumpção. Dizem que importára esta tribuna em mais de vinte contos de réis. Na capella-mór está depositado o corpo de Santo Innocencio martyr. Decoram a mesma capella dois orgãos de excellentes vozes. 
    Pelas fachadas lateraes junto ao envasamento, corre um passeio lageado guarnecido de balaustrada e mais elevado que o pavimento das ruas. Na porta travessa que se abre na fachada do lado do norte está gravada uma inscripção latina que declara a padroeira a quem a egreja é consagrada e quem foram os fundadores d’esta. 
    Contiguo ao templo e comprehendido no edificio acha-se um hospital para clerigos pobres muito boas accommodações e perfeitamente servido.
    A torre com os seus setenta e cinco metros de altura levanta-se garbosamente, sobresaindo a todos edificios da cidade, e servindo de balisa aos navios que demandam a barra do Douro, pois que se a dez legoas de distancia da costa. Tambem pela mesma razão offerece aos viajantes que subirem os 240 degraus da sua escada interior um admiravel da cidade, dos seus formosos arrabaldes, de longinquas cordilheiras de serras, do rio, e Oceano. Como obra de arte deixa muito a desejar;  e só é notavel pelo arrojo do pensamento que a elevou a tamanha altura.  Não foi parco o archilecto nos ornamentos, mas não lhe assistiu bom gosto na escolha d’elles como lhe aconteceu com a frente principal egreja. 
   A confraria dos clerigos provê largamente a todas as despezas do culto divino e do hospital. As funcções religiosas são nomeadas pela magnificencia e boa ordem que n’ellas reinam, para o que muito concorrem a abundancia e riqueza dos paramentos e alfaias que o templo possue. Esta irmandade tem contado no seu gremio muitos prelados e outras illustres. Entre aquelles figura o primeiro cardeal patriarcha de Lisboa, D. Thomaz de Almeida. 
   A calçada dos Clerigos desce com bastante declive desde a frontaria do templo até á praça de D Pedro. Prestando-se, pela sua muita largura a ser guarnecida de arvoredo, mandou a camara municipal modernamente plantar dois renques de arvores um de cada lado junto aos passeios. Quando o sr. Seabra tirou a photographia de que é cópia a nossa gravura, ainda não existiam alli as arvores, e era a macadamisada. Actualmente está calçada com pedras cubicas, todas de eguaes dimensões. 
     É a calçada dos Clerigos um dos sitios mais concorridos do Porto. Deve esta vantagem a diversas circunstancias taes como: a sua visinhança de parte do principal mercado publico, e da outra, da praça de D. Pedro, e de outras ruas onde o movimento commercial é mais activo;  as lojas de variados objectos que a guarnecem;  e a ser a mais bela communicação da cidade baixa para a alta. 
O mercado do Anjo, assim chamado por ter sido edificado no logar dantes ocupado pelo recolhiemnto d’aquella denominação, fica ao norte da egreja dos Clerigos,  apenas separado d’ella por uma rua. As lojas referidas encerram, no maior numero, fazendas de seda, lã, linho e algodão, e muita diversidade de objectos de moda, porcelanas, cristaes, bronzes etc. Nenhuma se faz notar pela elegancia da armação, nem pela bonita disposição dos productos, mas algumas são notaveis pela muita cópia, e mesmo pela riqueza d’estes ultimos.
I. de Vilhena Barbosa  

in Archivo Pittoresco, Ano de 1864

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      Este templo, que dá celebridade ao Porto pela sua elevadissima e grandiosa torre, teve principio em 1732 no alto de uma calçada n’esse tempo chamada da Natividade. Foi fundado por uma irmandade de clerigos, em que entravam alguns seculares das principaes familias da cidade. O risco e execução dos trabalhos foram dirigidos por Nicolau Nasoni, architecto italiano. 
   Concluiram-se as obras em 1763 sendo tão demoradas tanto pela grandeza da fabrica como pelas avultadas sommas que annualmente consumiam. Verificou-se a sagração do templo no dia 12 de dezembro de 1779, sendo celebrante o bispo do Porto, D. Fr. João Raphael de Mendoça, filho do quarto conde de Val de Reis. Foi dedicada a egreja a Nossa Senhora da Assumpção, mas como o povo começasse a denominal-a durante a sua construcção, egreja dos Clerigos, ficou-lhe este nome popular pelo qual hoje é designada e geralmente conhecida. Da egreja passou tambem este nome para a calçada. 
    Por todos os lados se acha desaffrontado este edificio religioso. O fronstispicio olha para léste, e ergue-se no topo da calçada dos Clerigos. As lateraes estendem.se por duas ruas; e a frente oposta á principal que é formada desde os alicerces pelo edificio da torre, deita para um largo.
    Como bem se pôde julgar á vista da nossa gravura, o frontispicio é mais rico do que bello. Quando os ornamentos são de bom gosto, e se acham convenientemente distribuidos, se não supprem, nem escondem a falta de boas proporções no todo do edificio, conseguem ás vezes disfarçar este defeito, distrahindo d’elle os olhos do observador. Porém no presente não succede assim, porque o defeito referido é aggravado pela accumulação dos ornatos, em geral pouco graciosos e ainda por cima grosseiros, pois que o granito não admitte delicadezas de cinzel.
     Entre os dois nichos com estatuas que se véem corpo superior do frontispicio está a tiara pontificia sobre uma almofada, e no vertice do frontão a cruz de tres braços ornada com folhagem de palmas. É uma duplicada homenagem ao principe dos apostolos como patrono dos clerigos seculares fundadores do templo, e aos papas que concederam a esta egreja differentes graças e privilegios. 
     O interior do templo ostenta riqueza em obra talha doirada e na tribuna da capella mór que é de marmore, e no alto da qual avulta a imagem da padroeira Nossa Senhora da Assumpção. Dizem que importára esta tribuna em mais de vinte contos de réis. Na capella-mór está depositado o corpo de Santo Innocencio martyr. Decoram a mesma capella dois orgãos de excellentes vozes. 
    Pelas fachadas lateraes junto ao envasamento, corre um passeio lageado guarnecido de balaustrada e mais elevado que o pavimento das ruas. Na porta travessa que se abre na fachada do lado do norte está gravada uma inscripção latina que declara a padroeira a quem a egreja é consagrada e quem foram os fundadores d’esta. 
    Contiguo ao templo e comprehendido no edificio acha-se um hospital para clerigos pobres muito boas accommodações e perfeitamente servido.
    A torre com os seus setenta e cinco metros de altura levanta-se garbosamente, sobresaindo a todos edificios da cidade, e servindo de balisa aos navios que demandam a barra do Douro, pois que se a dez legoas de distancia da costa. Tambem pela mesma razão offerece aos viajantes que subirem os 240 degraus da sua escada interior um admiravel da cidade, dos seus formosos arrabaldes, de longinquas cordilheiras de serras, do rio, e Oceano. Como obra de arte deixa muito a desejar;  e só é notavel pelo arrojo do pensamento que a elevou a tamanha altura.  Não foi parco o archilecto nos ornamentos, mas não lhe assistiu bom gosto na escolha d’elles como lhe aconteceu com a frente principal egreja. 
   A confraria dos clerigos provê largamente a todas as despezas do culto divino e do hospital. As funcções religiosas são nomeadas pela magnificencia e boa ordem que n’ellas reinam, para o que muito concorrem a abundancia e riqueza dos paramentos e alfaias que o templo possue. Esta irmandade tem contado no seu gremio muitos prelados e outras illustres. Entre aquelles figura o primeiro cardeal patriarcha de Lisboa, D. Thomaz de Almeida. 
   A calçada dos Clerigos desce com bastante declive desde a frontaria do templo até á praça de D Pedro. Prestando-se, pela sua muita largura a ser guarnecida de arvoredo, mandou a camara municipal modernamente plantar dois renques de arvores um de cada lado junto aos passeios. Quando o sr. Seabra tirou a photographia de que é cópia a nossa gravura, ainda não existiam alli as arvores, e era a macadamisada. Actualmente está calçada com pedras cubicas, todas de eguaes dimensões. 
     É a calçada dos Clerigos um dos sitios mais concorridos do Porto. Deve esta vantagem a diversas circunstancias taes como: a sua visinhança de parte do principal mercado publico, e da outra, da praça de D. Pedro, e de outras ruas onde o movimento commercial é mais activo;  as lojas de variados objectos que a guarnecem;  e a ser a mais bela communicação da cidade baixa para a alta. 
O mercado do Anjo, assim chamado por ter sido edificado no logar dantes ocupado pelo recolhiemnto d’aquella denominação, fica ao norte da egreja dos Clerigos,  apenas separado d’ella por uma rua. As lojas referidas encerram, no maior numero, fazendas de seda, lã, linho e algodão, e muita diversidade de objectos de moda, porcelanas, cristaes, bronzes etc. Nenhuma se faz notar pela elegancia da armação, nem pela bonita disposição dos productos, mas algumas são notaveis pela muita cópia, e mesmo pela riqueza d’estes ultimos.
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