Francisco Pinto Bessa

«A cidade do Porto prestou há pouco a um dos seus concidadãos mais respeitados, um tributo indelével do seu reconhecimento, erguendo-lhe na sala das sessões do palacio municipal , o busto em mármore, de que hoje é publicada a gravura n’esta folha.

Referimo-nos a Francisco Pinto Bessa, a individualidade mais característica da burguezia prestante, a personificação veneranda da actividade benemérita e do civismo desinteresseiro.

Nascido em Lordelo do Ouro, subúrbios do Porto, em 6 de Fevereiro de 1821, filho de pães modestos em bens de fortuna, Pinto Bessa, influenciado pela justa ambição de encontrar, ainda que longe da pátria, uma compensação condignamente remuneradora do seu trabalho constante, foi procurar nas terras brazileiras os recursos que lhe permitissem mais tarde o desaffogo de uma vida abastada e conseguiu-o.

Affastado da terra a que um dia devia prestar benefícios relevantes, tivera elle ocasião de mostrar que não lhe fenecera nunca no coração os brios do bom portuguez, e como testemunho dos seus sentimentos de nacionalidade, quando aportara ao Rio de Janeiro desarvorada por uma viagem procelosa a nau Vasco da Gama, foi um dos que, com outros portugueses benemeritos, concorreu para a reconstrução dispendiosa d’aquelle vaso de guerra.

Esta liberalidade patriótica foi-lhe agradecida com o habito da Torre Espada com que o rei D. Pedro V o agraciou.

De regresso a Portugal, Francisco Pinto Bessa, longe de se entregar ao goso da sua fortuna invejável, descançando nas delicias do ócio egoísta s fadigas de uma labotação cuidadosa, começou a dar azas á sua actividade benéfica, pondo ao serviço do progresso da sua terra, toda a dedicação e boa vontade de que era capaz um espírito cheio de intenções elevadas.

Com o Dr. Braga e o visconde de Villar d’Allen, começou por metter hombros á ousada emrpeza de erigir no Porto um monumento que attestasse aos vondouros a iniciativa poderosa de uma cidade essencialmente trabalhadora, conseguindo com aquelles dois prestantes cidadãos a construção do palácio de Crystal Portuense. Para sanar algumas difficuldades que pareciam antepor-se á realização d’aquele pensamento arrojado, foi elle quem ainda com o mesmo visconde d’Allen e com o engenheiro Gustavo Gonçalves e Sousa se dirigiu a Londres em 1866, a fim de pôr cobro a attrictos apresentados pelo empreiteiro, sendo os seus esforços e os dos seus collegas coroados de êxito.

Eleito pela primeira vez vereador da câmara do Porto em 1866, foi desde logo nomeado vice-presidente, e no anno seguinte, por morte do conde de Lagoaça assumiu a presidencia, cargo que desempenhou até ao dia em que falleceu.

No cumprimento d’essas árduas funcções foi que Francisco Pinto Bessa patenteou todo o seu grande civismo e prodigiosa actividade, desenvolvendo de um modo notável a viação da cidade, augmentando os rendimentos municipaes e melhorando vários serviços. A elle se deve, entre outras obras de vulto, a abertura das ruas da Nova Alfandega, de Mousinho da Silveira e de Sá da Bandeira, a construção da Rotunda da Boavista e os embellesamentos do cemitério de Agramonte, uma das estancias fúnebres mais formosas do Paíz, onde há pouco foi construído o mausoleu que deve encerrar as suas ossadas.

Foi elle que também conseguiu que a Bibliotheca Publica se emancipasse da tutela do Estado, ficando dependente da administração municipal.

Em 1876 e a convite do lord mayor de Londres, o finando presidente da camara do Porto, assistiu como representante d’esta cidade, o grande banquete dado na capital de Inglaterra em honra dos municípios europeus, sendo ali alvo das mais distinctas considerações.

Eleito deputado em 1868 pelo Bairro Occidental, continuou nas legislaturas subsequentes a obter os suffragios dos seus concidadãos para aquele elevado logar, que exerceu também até ao anno da sua morte.

Francisco Pinto Bessa, além do hábito da Torre Espada, possuía a Commenda da Conceição, de que nunca fez uso e o grau de official da Ordem da rosa do Brazil. Espírito essencialmente democratico, recusara títulos e a dignidade de par do reino, que por mais de uma vez lhe haviam sido offerecidos.

Como presidente do senado portuense, Pinto Bessa deu provas inequívocas de um grande tino e de largos conhecimentos administrativos, o que lhe permitiu por vezes arcar, em debates acalorados, com argumentações vigorosas que nunca conseguiram subjugar a potencia da sua dialetica enérgica, mas desaffectada.

Como deputado, se a eloquência da sua phrase desataviada de arrebiques de estylo não arrebatava os que o ouviam, a sua influencia e a consideração respeitosa que lhe tributavam os mais elevados poderes do estado permittiram-lhe, em compensação, o conseguimento de assignalados benefícios para a cidade que representou.

Não era homem de palavras. Era homem de acção.

No meio dos ímpetos de um génio arrebatado, Pinto Bessa tinha no coração a essência de uma bondade extrema. A amizade era para elle um dogma e a honestidade um culto. Por muitas vezes, ao noticiar nas sessões municipaes, a morte de um empregado antigo e zeloso ou de um collega estimado, as lágrimas borbutravam-lhe nos olhos, por entre as phrases espontâneas de um pezar sincero.

Francisco Pinto Bessa morreu na madrugada do dia 4 de Maio de 1878, contando 57 annos de idade.O seu enterro foi uma das manifestações fúnebres mais significativas que aqui se tem feito, pelo numero considerável de cidadãos de todas as classes, cathegorias e opiniões politicas, que o acompanhou à derradeira morada.

Dias depois, a 9 de Maio, resolvia-se em uma assembleia popular, erguer-lhe um busto na sala de sessões dos Paços do Concelho, pensamento que foi levado a effeito por uma commissão de amigos e admiradores das virtudes do finado, tendo-se effectuado no dia 14 de Novembro ultimo, a inauguração solemne d’esse preito tributado a um dos homens a quem o Porto deve benefícios inolvidáveis.

O município portuense, perpetuara também a memoria do fallecido presidente, dando o seu nome a uma nova rua que se está abrindo entre a estação deo caminho de ferro de campanha e o Bonfim.

O busto de que se publica a copia, é executado em mármore de Carrara e representa mais um trabalho notável do estatuário Soares dos Reis.

Porto, 10 de Dezembro de 1880

Manuel M. Rodrigues

In revista «O Occidente», 3º ano, Volume II, nº72, de 15 de Dezembro de 1880

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