A TRAGÉDIA DAS CHEIAS DO NATAL DE 1909

Photographia Alvão

(artigo publicado no jornal “Grande Porto”, 24 de Dezembro de 2009)
Corria áspero a invernia pelos idos de Dezembro de 1909. A 19 recebia-se na capitania do Douro telegrama vindo da Régua relatando que o rio ali já subira alguns metros. Foram tomadas as primeiras providências para acautelar o perigo de cheias, reforçando-se as amarras em todas as embarcações no Douro e avisando-se as populações. Na noite de 21 caiu grosso temporal sobre a cidade, chovendo tão intensamente que as ruas se transformaram em verdadeiros rios, levando as águas de enxurrada tudo o que encontravam solto pelo caminho, inundando caves e lojas, derrubando árvores e levantando o pavimento das ruas. Os bombeiros portuenses não tiveram durante o dia descanso, continuamente chamados a ajudar quem via os seus pertences e os seus estabelecimentos totalmente destruídos pela força das águas. O rio engrossara de tal forma que chegou à Praça da Ribeira derrubando as tendas dos vendedores que agora boiavam no meio do rio. Miragaia e Massarelos estavam já invadidas pela água. Noventa barcaças foram sendo arrastadas rio abaixo, umas despenhando-se contra as os penedos da foz, outras abalroando navios e embarcações estacionadas nas margens e algumas saindo livremente pela barra rumo ao mar. Na noite de 22 outro temporal fustigou a cidade com «grossas cordas d’água batidas por um verdadeiro furacão» na descrição de um jornalista da época. Algas casas ruíram total ou parcialmente fruto da força dos elementos, mas foi no rio que uma verdadeira tragédia ocorreu. A água, subindo até aos 12 metros acima do seu caudal normal e a uma velocidade de 10 milhas por hora, tudo levava na frente. Todas as amarras dos navios que estavam junto à Alfandega se quebraram, levando-os para a barra, 150 barcas desfizeram-se contra as margens, abalroando pelo caminho vários vapores, iates e outras barcas, criando uma confusão enorme de maços de carga e destroços rio abaixo. O estrondo das barcas e navios a embaterem uns nos outros ou a desfazerem-se contra os cais era verdadeiramente impressionante e o esforço de muitos marítimos de os tornar a amarrar foi em vão.
O vapor «Cintra», com tripulação alemã, soltou-se e foi embater na corveta-escola «Estephania» estacionada junto ao Ouro, desfazendo-a quase por inteiro, seguindo depois o «Cintra», á deriva, para o Cabedelo. A sua tripulação toda a noite esteve pedindo socorro, fazendo sinais de luzes com as lanternas e lançando foguetes de sinalização. Mas em vão. Era impossível, mesmos aos mais experimentados fazerem-se ao rio para os socorrerem. A certa altura em frente da ribeira passa no rio uma grosa pilha de madeira, flutuando a grande velocidade rio abaixo, mas para horror da multidão, que observava a tragédia das margens, um homem seguia com ela, gritando e gesticulando por socorro. As crónicas da época apenas dizem que «não se chegou a saber o destino do desgraçado».
A águia atinge o alto do Muro dos bacalhoeiros. E as notícias vindas da Régua criam ainda mais alarme pois o rio continua a subir. Os engenheiros do porto vão medir a distância das águas do rio ao tabuleiro inferior da ponte D. Luiz I para decidir se será necessário cortá-lo. Cerca de 50 centímetros separam a água da ponte. Na maré alta seguinte, a distância já era bastante inferior, passando o perigo maior.
Desde o dia 20 que a não havia serviço de comboio para Lisboa, por causa do mau tempo e de várias derrocadas ao longo da linha. Apenas se conseguia fazer a ligação das suas cidades com grande parte do trajecto feito por terra. A Companhia do Gaz informou a Câmara que já só tinha gaz para duas horas, pelo não iria haver iluminação nas ruas da cidade nos próximos dias. A empresa de águas deu igualmente conta que o rio Sousa tinha subido de tal forma, tudo inundando, que o serviço de abastecimento à cidade tivera necessidade de ser interrompido, nãos e sabendo quando poderia ser retomado. Não havia serviço telegráfico. A cidade estava isolada e paralisada. Foram reforçadas as patrulhas policiais, com o auxílio das tropas dos vários quartéis da cidade, a fim de se evitarem assaltos e guardarem os estabelecimentos e habitações danificados. A estrada da circunvalação, junto ao Freixo, está inundada e a fábrica de moagem paralisada. Assim como toda a margem do rio, desde a ribeira até à Cantareira.
O pessoal da Alfândega esteve todo o dia e noite a retirar fardos de arroz dos armazéns que estavam já inundados, o mesmo fazendo diversos outros comerciantes e armazenistas da zona. A Câmara disponibilizou o Mercado Ferreira Borges para guarda de mercadorias e o Quartel de Bombeiros em Gonçalo Cristovão para as famílias desalojadas da Ribeira, Miragaia e Massarelos. A água do rio, junto à Ribeira, ultrapassa em 80 centímetros a marca das cheias de 1860, até então, as maiores de que existiam registo. Mais de mil casas foram afectadas ou ruindo total ou parcialmente.
A 24, milhares de pessoas deslocam-se em eléctricos, trens e automóveis para as margens do rio e para a foz, assistindo ao dantesco espectáculo. Das 700 barcaças estacionados nas duas margens do rio antes das cheias, apenas 40 continuavam ancoradas e dos 45 vapores, 12 ficaram em condições de navegar. Tudo o mais estava destroçado ao longo do rio, ou saíra barra fora. Os restos do antigo navio da armada de guerra «Estephania» jazia agora na praia do Ourigo e em pouco tempo a força do mar o desfez em pedaços, com muitos dos seus marinheiros, alunos e oficiais assistindo em lágrimas ao destruir da velha glória da marinha. Ao longo da costa, milhares de fardos de mercadorias, tonéis de vinho e destroços de embarcações flutuavam à vista ou eram jorrados pela força do mar nas praias e nos penedos.
Seis tripulantes do vapor «Contra» que se encontrava em situação perigosa junto ao Cabedelo, em manobra de desespero, fazem-se ao rio num pequeno escaler, mas, quando este, arrasto pela força do rio se dirige para as pedras de Felgueiras, atiram-se ao mar, dando à costa apenas 3, prontamente socorridos pela população. Os corpos dos outros 3, incluindo o capitão da embarcação, acabarão por serem encontrados nos dias seguintes. Os restantes 7 membros da tripulação, permanecendo em difíceis condições a bordo, acabaram por salvar a sua vida, sendo no dia 25 resgatados com segurança.
A 26 chega de surpresa o rei D. Manuel II ao Porto, acompanhado de alguns ministros do seu governo, para averiguar estragos e tomar primeiras providências. À chegada , dirige-se imediatamente para Carreiros , a verificar o desolador espectáculo, seguindo depois para os Pilotos onde felicita os esforços dos mestres da barra no salvamento dos tripulantes do «Cintra» e segue para Miragaia, Ribeira e Barredo onde visita algumas famílias e verifica os estragos. De imediato dá início à constituição de um fundo para apoio aos mais necessitados e o governo em Lisboa toma as primeiras medidas de emergência, as quais incluem o envio de alimentos e afectação de verbas de emergência para obras mais urgentes. A vereação da cidade recorda ao rei a absoluta necessidade de dar seguimento rápido à construção dos acessos viários ao porto de leixões, para salvaguarda dos bens e comércio em geral de toda a região, evitando-se dessa forma, «os humores do rio».
A cidade, mesmo fortemente abalada, recompôs-se. O rio voltou, mesmo quando depois foi «regulado» pelas barragens, a fazer estragos na décadas seguintes. Mas nunca como em 1909, naquele que foi certamente o momento de maior fúria destruidora do rio da sua história, mas que, apesar disso, manteve o Douro a marca de personalidade imprescindível da cidade.
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