Fantasporto – IV

«MEMÓRIAS DO FANTAS (originalmente publicado aqui, a 28/02/2004)

O Fantasporto é um dos principais festivais de cinema do mundo, seja pela sua dimensão, qualidade e variedade dos filmes e sucesso de público.
Está agora decorrer a sua 24ª edição, à qual não tenho oportunidade de assistir.
O Fantas tinha, no tempo em que eu assiduamente participava, diversas particularidades que o tornavam tão carismático.
Hoje em dia está popularizado o conceito de ir ao cinema sem se saber ao certo que filme se vai ver. No Fantas era assim todos os dias. Lia-se o programa, dizia-se vagamente “ouvi dizer que este é bom” e sabe-se lá que mais mentiras intelectuais e partia-se para o Carlos Alberto para uma sessão no escuro. Em todos os sentidos.
Aquele cinema não tinha lugares marcados, as pessoas sentavam-se onde queriam, mas existiam arrumadores!
A fauna que o frequentava sempre me fascinou: de onde saía aquela gente cheia de barbas, cachecois palestinianos, malas a tiracol, eu sei lá? Zombies noctívagos certamente pois de dia não se viam pela cidade.
O ambiente era perfeitamente delirante. Batia-se palmas quando as moto-serras dos filmes de Dário Argento (nas sessões das duas da manhã!) cortavam ao meio o 14º personagem. Tudo aquilo não tinha muito sentido, mas era divertidíssimo. Assobiava-se quando o herói salvava a criança das garras do milionésimo lobisomem: “deixa ver”, “sacana”, sai da frente”, “deixa o rapaz trabalhar” eram expressões usualmente soltas pelos mais exigentes.
Havia intervalos nos filmes e uma onda de fumo entrava pela sala dentro na segunda parte.
Um dia, numa qualquer sessão às cegas das 15.30 apareceu um sujeito em cima do palco a anunciar que o filme se tinha atrasado num qualquer aeroporto e portanto iria ser substituído por outro, de um ainda mais obscuro realizador polaco, em V.O., legendado em francês. Ninguém saiu da sala. Ninguém protestou. Era para isso mesmo que lá estavamos todos. Ser surpreendidos. Nem sequer ao fim de meia hora em que não se percebia um chavo (toda a gente percebia francês, claro, a dificuldade relacionava-se com a realização deficiente, com a história desconchavada e com as minúsculas legendas de minuto a minuto, numa película cheia de diálogos naquela bela língua de Leste.
Mas o êxtase aconteceu quando de repente, num belo efeito cinematográfico de impossível repetição, a película, qual cena inicial do Bonanza, começou a arder, do centro para a periferia. A sala vinha abaixo com palmas, gritos de “bis, bis”, “queremos mais” e sei lá que mais. Lá surgiu o mesmo personagem a anunciar “um curto intervalo” e a reposição de um filme passado no dia anterior.
Vi lá coisas excelentes das quais destaco a ante-estreia de Blade Runner. Cronemberg, o horrível, mas por isso mesmo divertido filme de Coppola chamado “Dimitri 13″, o “Metrópolis” do Fritz Lang com banda sonora por uma orquestra ao vivo, “Solaris” do Tarkovsky, Joel e Ethan Cohen, Brian de Palma, Freddy Krugger, Pedro Almodovar, Stephan King, Tarentino, o “Delicatassen”, David Lynch e tantas coisas boas.
E tenho a sensação que é um Festival com poucos subsídios (é duro, mas fica-lhe bem e aguça o engenho), com uma excelente imagem visual e gráfica e que se tornou uma marca visível da cidade.
Viva o Fantas!»
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