Onde pára o leque dos «cinco cães»?

Grupo dos Cinco
Tirada no Palácio de Cristal no verão
Fotog., Photographia União, Porto 1884
(da esq. para a direita: Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins)

«O meu amigo Eça de Queiroz, que tem andado comigo, com uma maleta, e com uma resma de papel, a procurar pelo reino um sítio limpo de massadores, de moscas e de cozinheiros afrancezados, para ahi acabar de escrever A Reliquia, chaga-me hoje da Granja, onde por espaço de dois dias aplicou aos fenomenos sociaes o monocola da nalise; mas nada pude arrancar do seu peito discreto ácerca da intriga de castas, que surdamente me dizem agitar a psicologia a banhos n’essa praia. Ao sentarmo-nos á mesa para almoçar juntos no Palacio de Cristal, com Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, soubemos apenas que no club da Granja o nosso amigo perdera na vespera a aposta de um leque n’uma partida de bilhar com uma das banhistas. Uma das condições da aposta era que o leque seria escrito pelos amigos com que Eça de Queiroz tinha de vir almoçar ao Porto.

Á sobremesa fizemo-nos pois servir um tinteiro e uma penna da cozinha, e entre a pera e o queijo, o leque, comprado no Bazar do Palacio, de setim côr de ouro ornado de uma aguarela representando um grupo de cinco cães, ficou escrito do seguinte modo.
Por cima dos cães, este distico: – Os autores.
Do lado oposto, a rubrica e o texto que passo a transcrever:
OS LATIDOS
I
Quem muito ladra, pouco aprende. Antero de Quental
II
Escritor que ladra não morde. Oliveira Martins
III
Dentada de critico cura-se com pêlo do mesmo critico. Ramalho Ortigão
IV
Cão lirico ladra á lua; cão filosofo abóca o melhor osso. Eça de Queiroz
V
Cão de letras – cachorro! Guerra Junqueiro
ENVOI
São cinco cães, sentinelas
De bronze e papel almasso;
De bronze para as canelas,
De papel para o regaço.
(Assinada) A MATILHA
O leque foi para a Granja com Eça de Queiroz. (…)»
Ramalho Ortigão, in As Farpas, 1º Tomo, Empresa Literária Fluminense Lda, 1926, Lisboa, p.p233-235;
Notas: O referido almoço no Palácio de Cristal ocorreu em Outubro de 1884.
A «banhista» apostadora com Eça de Queiroz, era Emília de Castro Pamplona, com quem aquele escritor veio a casar em 1886.
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